Vazio

Confesso a saudade de estar comigo ao meu lado

e tento cavar um túnel 

que me leve de volta

ao  mundo que me prendeu

sem saber ao certo se era eu

- Jay Vaquer, Por um pouco de Paz (Crime do Desassossego)

Dentre todas as coisas que corrompem a alma de um ser humano, existe uma que é a pior de todas: as expectativas. A gente sempre tem expectativas de tudo: da vida, do trabalho, da escola, do relacionamento, do parceiro. De tudo. Não fazemos nada sem antes depositar na conta da consciência uma dose de expectativas, sejam elas poucas ou muitas. Sempre tem alguma coisa que te faz esperar uma outra coisa que às vezes você nem sabe o que é.

Abro a porta do apartamento que não vejo há mais de dois meses. Uma empregada deve ter vindo aqui periodicamente para cuidar da poeira que deveria se acumular em cima dos móveis que existem em excesso aqui. Não adianta ter tantos sofás confortáveis se eu só vou me sentar em um. Não adianta ter uma sala enorme se eu moro sozinho. Não adianta ter uma vida como essa se você tem que fazer da sua vida uma eterna satisfação das expectativas alheias.

Jogo minhas malas pela sala sem me preocupar se alguém vai tropeçar. Meus passos fazem eco nessa porcaria. Eu detesto andar por aqui. Parece uma caverna de luxo, localizada em um dos bairros mais nobres de São Paulo e que só tem uma coisa boa: a vista. A varanda pelo menos dá para uma vista ampla da cidade que eu posso ver sempre que quiser. Quer dizer, sempre que posso: não paro em casa, se é que posso chamá-la assim. Isso se parece mais com um hotel, onde o quarto é arrumado de forma genérica para tentar agradar todo tipo de gosto, sem nunca conseguir. Não existe nada meu nesse apartamento patrocinado pela minha gravadora. Foi tudo uma criação deles para que pensassem que eu sou despojado e sintonizado com as tendências da decoração. Eu não estou nem aí para as tendências. Eu quero meus pôsteres na parede, com versos do Legião e do Cazuza rabiscados a lápis por todo canto e meus CD’s espalhados pela casa; não essa coisa pós-moderna parecendo casa de novela que não tem nada a ver comigo.

Não. Esse não sou eu. Nunca foi, e nunca vai ser.

Talvez isso tudo se compense com a fama que eu tenho. Sou bem recebido em todos os lugares, conhecido, e as pessoas cantam minhas músicas a todo momento. Eu estou na TV, nas rádios. Na boca do povo. Talvez não eu, mas aquele que criaram para vender nas lojas por aí.

Todo mundo acha que ser a sensação da música pop do momento é bom. Todo mundo acha que eu sou feliz. Mas faz muito tempo que eu não sei o que é ser feliz. Não sei até onde faz a diferença entre ser um músico de bar almejando uma vida no estrelato ou então uma estrela que se pergunta o que acontece depois que você brilha. Mas depois do topo, não existe nada. Só o vazio que te pergunta a todo momento o que é que você vai fazer agora.

As pessoas buscam sempre alguma coisa além daquilo que têm. Eu mesmo, quando era só mais um músico tocando nos bares da cidade queria ter o privilégio do sucesso. Amaldiçoava minha vida de anônimo. Sentia-me um lixo. Mas então um empresário me encontrou, me deu a oportunidade de abrir os shows de alguns músicos de sucesso, e então… cheguei aqui. Gravei o primeiro CD, fui bem recebido na crítica e pelo público, fiz uma turnê muito bem sucedida. E só. Acabou. Eu virei um artista que faz músicas vazias de sentido e que não tem nada a ver comigo, canto as mentiras que componho e vivo a mentira que a gravadora passa para mim. Não dá para dizer que a felicidade foi alcançada.

Não há paz. Só o vazio.

Ando pela casa, procuro uma garrafa de água na geladeira, e noto que existe comida light no estoque. Odeio comida light. Quero desesperadamente as batatas fritas gordurosas e venenosas dos fast food. Quero comer o bolo de chocolate que a minha avó fazia quando ainda viva. Mas me contento com a carne de soja que meu agente insiste em dizer que é gostosa.

Abro a porta para a varanda, e saio, pisando no concreto gelado debaixo dos meus pés descalços. Lá fora, as pessoas vivem a vida simples, como pessoas. Não como ícones e alegorias feitas para dizer a mentira que elas são infelizes, como eu. Vivem sem a hipocrisia que me obrigam a passar nas músicas que componho sem sentir as palavras que escrevo, nem nos sorrisos forçados para as revistas adolescentes. Vivem sem a prisão que construíram para si mesmas em troca do mais fútil sucesso.

Dou um gole na garrafa. Não abasteceram meu conhaque, depois que abusei dele durante a turnê. Não é a imagem de alcoólatra que a gravadora quer passar para a sociedade. Ninguém precisa de mais uma Amy Winehouse. Ela morreu por conta das drogas.

Olho para a cidade, e sinto aquela coisa tomando conta de mim. Eu sei porquê a Amy morreu. Eu entendo ela. É essa coisa que tem dentro da gente. Essa inquietação que nos impulsiona a beber, se drogar; para saciar esse vazio aqui dentro. E a criar as coisas mais geniais e a procurar algo sem nome em lugar nenhum.

Não sou mais eu. Não sou ninguém. Só o vazio.

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2 responses on “Vazio

  1. Japa maldito.
    Infeliz.
    POW, NEM COMECEI E VOCÊ JÁ ESCREVE ALGO ASSIM? PRecisa mesmo ser tão foda? Não sei se sinto raiva ou admiração, se xingo ou parabenizo. Bom, tudo isso; tá foda, curti demais. A música é incrível e a forma como vc escreveu sobre ela ficou muito show.
    Escreva mais, japinha. CÊ manda bem demais!

  2. Uhn, só acho que anônimos ou estrelas, todos somos meio vazios, meio prisioneiros, meio nada a ver com a gente mesmo.
    Lindão o texto (:

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