Paradoxo

A festa já está bombando quando eu chego, meio atrasado, sem me preocupar muito com o horário. Festas assim têm hora para começar, mas nunca para terminar. Geralmente termina quando todos os elementos já foram embora ou se encontram incapazes de fazer qualquer coisa que não seja vomitar o álcool que consumiram em excesso durante a festa. Mas por enquanto, estamos naquele estágio em que as garotas chegam para mostrar suas roupas — ou a falta delas —, falar mau da maquiagem de uma, do cabelo de outra e de como aquela ali engordou. E os caras? Bem, esses aí estão avaliando a mercadoria de hoje e decidindo quem é que vai investir no que e tentar se dar bem essa noite. Quem disse que só os animais têm rituais de acasalamento?

A música repetitiva e completamente desprovida de qualidade entra em meus ouvidos. Demoro um tempo para me acostumar. Sabe como é: a gente sempre chega e fica assustado com uma música tão ruim, mas depois se acostuma. Cheiro de fumaça me invade as narinas, e meus olhos ficam ofuscados pelas luzes psicodélicas. Em um canto, um casal que resolveu pular o Protocolo do Acasalamento Humano já se agarra como se estivessem em um motel. Qual é gente: mau passou da meia-noite. Tenham um pingo de Etiqueta da Putaria. No outro canto, mais longe, umas garotas seguem à risca o Protocolo e tiram fotos para as redes sociais. Elas ainda estão sóbrias o suficiente para isso.

Vou ao bar e peço uma bebida. Open bar por toda noite, certo? Então eu mereço. Todos aqui merecem. Todos têm uma desculpa muito bem ensaiada durante toda a semana para encherem a cara, dançar e transar com alguém que só te disse o nome e provavelmente também tem uma ótima desculpa para ir falar com você. Encosto-me no balcão e aproveito a paisagem, sem me interessar muito pela pista. Não estou bêbado o suficiente para isso.

Agora parece que encerraram-se as fotos, e começam as investidas. Há mais casais se agarrando pelos cantos, mais copos com guarda-chuvas circulando e aquelas pulseiras de neon ridículas fazendo rastros coloridos em minha visão na medida que se movimentam em mãos e pescoços alheios. Detenho minha visão em uma garota lá na frente, que dança com algumas amigas. Aquele tipo de garota que vai numa festa com uma roupa minúscula sabendo que vai atrair atenções, fica se insinuando para meio mundo e não fica com ninguém. Fica só com as amigas, esnobando qualquer cara que chegue pelo puro prazer de se sentir querida e desejada. É, sei que estou soando meio psicólogo e o caramba, mas é bem assim que funciona. Depois de fazer toda essa palhaçada, essas garotas vão para casa solitárias e percebem que o joguinho delas não funciona. Aí vão para o Facebook despejar suas lamúrias por estarem solteiras enquanto aquela mais desprovida de beleza conseguiu um namorado que gosta dela.

Ela me percebe, e me olha com uma cara de quem não gostou do que viu. A verdade é que a gente se conhece. E vamos dizer que temos uma relação bem curiosa. Ela sai dali e some entre as pessoas que dançam sem saber o que estão dançando. Logo, meu celular toda.

O que você está fazendo aqui? Eu te disse para não vir!, diz a mensagem. Abro um sorriso e digito: Estou curtindo a festa e tomando um drinque, como você pôde ver. Paguei pelo convite, acho que tenho esse direito, não?, e envio. O aparelho fica mudo depois disso.

Não demora muito para ela reaparecer na pista, dessa vez dançando com um cara da largura do meu armário que passa doze horas numa academia e não deve saber escrever muita coisa além do próprio nome e deve se perder quando tem que fazer contas que superam sua capacidade de contar nos dedos da mão. Ela finge estar totalmente absorta pelo assunto que ele está puxando, enquanto finge ter muita intimidade com ele, forçando uns toques, dançando de modo exagerado e exibido. Eu esperava mais, se quer saber. Mas acho que tenho um defeito muito ruim: vivo pensando que as pessoas são tão boas quanto eu. E olho para o lado, encontrando uma garota sentada a dois bandos de distância apreciando um Martini.

Numa festa, as mulheres mais interessantes são as que estão no bar, e não as que estão na pista. As da pista só procuram auto-afirmação como as mais gostosas da festa e um monte de caras querendo transar com elas. As que ficam no bar podem ser de dois tipos: as que estão querendo encher a cara para esquecer algum idiota que as magoou ou as que simplesmente sabem o quanto são interessantes e não precisam de nenhuma multidão de caras dizendo isso.

Começo uma conversa. Ela se mostra interessada, ri das minhas piadas e faz parte do tipo confiante. Sabe quem é e não fica atrás de pretendentes para a noite. A gente conversa por um tempo, pede mais um drinque e nenhum dos dois pronuncia nenhum tipo de vontade de dançar. Se ela quisesse dançar, já teria ido. Se eu quisesse, já tinha ido também. Rimos um pouco, e quando a conversa parece estar ficando legal, a outra aparece. Diz que quer conversar comigo, se faz toda carinhosa, lança um olhar fulminante para minha nova amiga e me arrasta para fora, segurando meu braço com força. Juro que se eu tentar fugir, vou ter que deixar meu precioso braço esquerdo com ela.

— O que é que você está fazendo? — pergunta, com raiva.

— Conversando, ora. Estou sozinho, é uma festa, a moça também estava sozinha… fui socializar, só.

Ela torce o nariz.

— Me poupe, vai. Estava dando em cima dela.

— Tanto quanto você estava com o gorila lá.

Ela ri.

— Estava com ciúmes, é?

— Não.

— Claro que estava. Foi puxar conversa com outra só para me provocar.

— E você caiu, porque dispensou o gorila e veio me buscar na hora. — isso me custa levar um tapa. Dói bastante, mas isso significa que ela perdeu a razão e a vitória do debate é minha. De novo.

— Na boa, eu tenho nojo de você. — diz, tentando simular o desprezo que ela ensaiou na frente do espelho e acabou por não ouvir que ela nunca vai dar uma boa atriz.

Puxo-a pela cintura, dou-lhe um beijo e mordo seus lábios. Ela me morde, e arranha minhas costas por cima da camisa. Ela me puxa, quase desesperada. Como se fosse morrer se não me beijasse.

— Nojo. Sei. — digo, entre um beijo e outro. Ela me olha com raiva. E dessa vez é verdade.

— É. Nojo.

E me puxa outra vez.

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One response on “Paradoxo

  1. Gostei do humor em passagens como “etiqueta da putaria” e o perder o braço esquerdo Ushuashua!
    No geral, seu ceticismo está romântico, se é que isso faz sentido e_ê
    Gostei!

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